Rodolfo F. S. Nunes
Professor e Consultor
Professor e Consultor
Em Santa Quitéria do Riacho Seco, o riacho só existe no nome e na promessa de vereador. Numa barbearia de bairro, o amor chega com o nome errado na placa. Numa lanchonete em frente à prefeitura, uma mulher negocia o limite entre o que se faz e o que não se faz. Num velório de cidade pequena, a memória dos mortos é corrigida em tempo real.
Histórias perdidas no vão da estante reúne personagens que sobrevivem por astúcia, afeto torto e uma capacidade rara de encontrar dignidade onde ela não deveria caber. De Bené, que redistribui patrimônio público com a própria coluna, a Celina, que conhece todos os processos que dormem e todos os homens que os assinam. De César, que aprendeu a existir dentro de uma tela, a Roberto Carlos, que calou pela primeira vez na casa errada.
Contos do cotidiano brasileiro — irônicos, precisos, sem sentimentalismo barato e sem cinismo vazio.
Disponível na Amazon.
Em algum lugar entre o sistema que caiu e o café que esfriou, existe uma civilização.
As histórias de um guarda-livros reúne contos sobre gente que passa o expediente inteiro resolvendo o que não deveria estar quebrado — o funcionário que transforma ignorância alheia em procedimento, o operacional que impede que as promessas do atendimento virem processo judicial, o arquivo morto que guarda mais memória do que qualquer diretoria gostaria de admitir. São trabalhadores de firmas privadas, empresa pública e cooperativa: cansados, contraditórios, irônicos, capazes de coisas extraordinárias quase sempre apesar do ambiente, não por causa dele.
O título é uma homenagem discreta: guarda-livros era o nome antigo do contador — aquele que guardava os registros, a prova de que algo existiu. Esses contos fazem o mesmo. Guardam não o que foi glorioso, mas o que foi real.
Porque não é difícil pelo trabalho. É difícil por ser trabalhador.
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Este livro reúne onze contos sobre o tempo — não o tempo abstrato dos relógios, nem o tempo filosófico tratado com solenidade, mas o tempo miúdo, gasto, perdido, espremido e administrado pela vida cotidiana. O tempo que desaparece no elevador, na fila, na notificação, na reunião, na busca pelo descanso, na tentativa de aproveitar melhor a própria vida e até no esforço inútil de dormir rápido para acordar produtivo.
Os textos partem de situações comuns, mas avançam pelo exagero, pela sátira e pelo absurdo. Há aqui um serviço funerário acelerado, uma sociedade que substitui comida por sprays nutricionais, um trabalhador que transforma o banheiro da empresa em último território de resistência, pessoas incapazes de ouvir uma voz humana em velocidade normal e até uma reconstrução do inferno de Dante, com um círculo adicional reservado aos propagadores de deadlines. A lógica é simples: exagerar a realidade até que ela revele o que já havia de absurdo nela.
O fio condutor desses contos é a percepção de que, no capitalismo contemporâneo, o tempo raramente é perdido por simples escolha individual. Ele nos escapa por uma estrutura que nos ensina a correr, responder, produzir, otimizar, performar, registrar, atualizar, consumir, descansar com método e até sofrer com eficiência. Perdemos tempo tentando economizar tempo. Transformamos o descanso em tarefa, o afeto em agenda, a alimentação em abastecimento, a atenção em métrica e a vida em uma sequência de prazos.
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Em breve
Inferno S.A. — contos da corporação mitológica nasce de uma pergunta simples, embora bastante incômoda: e se o inferno não fosse apenas um lugar de condenação, mas uma forma de organização?
Os contos reunidos neste livro partem de diferentes mitologias, tradições religiosas e narrativas sobre a morte, o castigo, o submundo e a travessia. Há ecos da Divina Comédia, da mitologia grega, romana, egípcia, nórdica, japonesa, maia, asteca e de outras formas simbólicas por meio das quais a humanidade tentou imaginar o destino dos mortos, a justiça, a culpa, o sofrimento e a ordem do mundo. Mas essas referências não aparecem aqui como reconstituição erudita ou adaptação fiel. Elas são deslocadas para outro ambiente: a corporação contemporânea.
Neste livro, o inferno não é apenas fogo, punição e desespero. É também sala de reunião, planilha infinita, avaliação de desempenho, compliance, meta inalcançável, cultura organizacional, corte de benefícios, relatório de lições aprendidas, indicador de produtividade e e-mail enviado fora do horário. Os deuses, demônios, psicopompos, heróis e condenados não desaparecem; apenas ganham crachá, cargo, setor, senha de acesso e obrigação de preencher formulário.
A ideia central é tratar o inferno como uma estrutura. Não como condenação individual, mas como sistema de funcionamento. O sofrimento deixa de ser apenas castigo e passa a ser processo. A culpa vira métrica. A punição vira política institucional. A eternidade vira jornada de trabalho. O destino vira plano de carreira. O absurdo mitológico se encontra com o absurdo burocrático, e os dois se reconhecem com uma intimidade assustadora.
Disponível na Amazon.
Em Hoje tem aula normal?, o cotidiano escolar aparece sem verniz, sem discurso motivacional e sem aquela ideia heroica de docência que costuma caber bem em palestra, mas raramente sobrevive ao terceiro horário de uma terça-feira quente.
Os contos reunidos neste livro acompanham professores, alunos, coordenadores, secretárias, mães, grupos de WhatsApp, conselhos de classe, assembleias, diários atrasados, provas rasuradas, pedidos de banheiro, cafés salvadores e pequenas regras que ninguém sabe explicar, mas todo mundo obedece como se estivessem gravadas em pedra.
Aqui, a escola é vista pelos bastidores: a sala dos professores como embaixada do cansaço; o diário de classe como documento quase cartorial; o conselho de classe como tribunal moral; a prova como espelho cruel do que foi — ou não foi — ensinado; o grupo dos professores como campo minado de figurinhas, indiretas e áudios longos; o supermercado como território fora de jurisdição onde professor e aluno descobrem, constrangidos, que ambos existem para além da escola.
Com humor ácido, ironia e alguma ternura involuntária, o livro revela que as perguntas mais simples da vida escolar quase nunca são simples. “Vai cair na prova?”, “Posso ir ao banheiro?”, “Pode responder de caneta?”, “Tem visto?”, “Professor, o senhor é casado?” e “Hoje tem aula normal?” parecem frases banais, mas carregam disputas sobre poder, pertencimento, avaliação, autoridade, afeto, burocracia e sobrevivência.
Não há professores heroicos nestas páginas. Há professores cansados, contraditórios, sarcásticos, às vezes generosos, às vezes impacientes, tentando sustentar alguma forma de sentido entre reuniões que poderiam ser e-mails, plataformas que não funcionam e alunos que, entre uma piada e outra, ainda conseguem fazer perguntas capazes de desmontar o cinismo acumulado.
Também não há alunos reduzidos a caricaturas. Eles aparecem como sujeitos vivos: engraçados, dispersos, vulneráveis, sagazes, cruéis sem perceber, ternos quando menos se espera, especialistas em testar limites e em revelar, sem cerimônia, as fissuras da escola.
Hoje tem aula normal? é um livro sobre a rotina escolar como ela raramente aparece nos documentos oficiais. Porque, no diário de classe, registra-se o conteúdo ministrado. Mas não cabe ali o café frio, o ventilador quebrado, a resposta inesperada, a vergonha no caixa do supermercado, o aluno que voltou do banheiro, a pergunta que salvou a última aula do dia ou a estranha sensação de que, apesar de tudo, alguma coisa ainda vale a pena.